terça-feira, 17 de julho de 2012

Vermelho


Paulo e Clarisse namoravam há quatro anos, desde o ensino médio. Agora estavam na faculdade, quando decidiram morar juntos.  O natural seria um futuro casamento, mas agora não dava. Paulo cursava Direito, numa das faculdades mais conceituadas do Rio de Janeiro. Clarisse, Enfermagem, sua frustração, pois sonhava com Medicina, e pensava que qualquer coisa da área de arte teria sido melhor que a atual. Mas a vida é assim, às vezes tomamos atitudes que nem nós mesmos sabemos o porquê.
Naquele tarde, Clarice saiu de casa toda de branco, primeira aula era no laboratório.  Branco, a cor da pureza, da paz, das noivas, dos comprimidos que acalmam, da cocaína. Branco, a cor do mármore da escada que Clarice descera. Branco, branco, branco, branco, branco...

Paulo trabalhando, atendendo telefonemas, enquanto sua namorada atravessava a cidade para estudar.
E quando a primeira aula de Clarice acabou, e tirou aquelas luvas, suas mãos magras e aquelas unhas feias com resquícios de esmalte branco na cor Via Láctea lhe deu uma tremenda aflição. Na segunda parte da aula, enquanto escrevera as anotações, olhava para as unhas que a deixava cada vez mais irritada, começou a ter um mal-estar, e abandonou a aula antes que ela terminasse. Saiu da aula arrancando o esmalte com certa psicose, procurou uma farmácia, comprou algodão e acetona e tirou aquele resto de tinta branca que não enfeitava, e de nada servia em sua unha.

Por algum motivo aquele resto de esmalte em suas unhas despertara alguma insatisfação. Em um daqueles dias que nada faz sentido, coisas sem sentidos começam a fazer algum.
Já fazia alguns minutos e seu ônibus não passava, então Clarice decidiu pegar uma outra linha que a deixava mais distante, era bom que caminhava um pouco, caminhar faz bem nessas horas, e o dia estava fresco. Desceu do ônibus e foi caminhando. De repente passou em frente a um salão de beleza e decidiu entrar, e já que não pode mudar algumas coisas na sua vida, poderia mudar pelo menos o corte de seu cabelo. Pensou chegando em casa e imaginou Paulo elogiando seu novo corte. Clarice amava mesmo Paulo, e em tudo que fazia tinha um pouco dele. E assim  entrou no estabelecimento:
- Boa tarde!  Cumprimentou a recepcionista.
-Boa tarde, tem horário agora para um corte de cabelo? Perguntou Clarice.
-Tem sim! Só aguardar uns 5 minutinhos...
-E pra unha?
-Pé e mão?
-Não, só mão.
-Só um momento, vou dá uma olhada...Tem sim.
-Quanto fica o corte e mão?
-Quarenta e três reais, senhora.
-Ok, vou aguardar ali.

Clarice primeiro cortou o cabelo, aqueles fios a menos lhe deixou mais leve. E então foi fazer as unhas:
-Qual cor, senhora?
- Branco. Não, o que você tem de vermelho aí?
Clarice sempre pintara de cores neutras, branco, principalmente, mas hoje decidiu mudar. Hoje era dia de vermelho.

Enquanto caminhava de volta para sua casa, Clarice viu a última coisa que gostaria de ter visto nessa vida: a traição. Paulo e sua amiga, sua melhor amiga, perto de sua casa, numa ruela, num beijo, num beijo que não parecia o primeiro, mas um beijo que parecia antigo, eterno.
Clarice poderia ter tido qualquer outra atitude, mas saiu andando depressa e foi direto para casa, com uma sensação meio sinestésica. Chegou em casa, e totalmente perdida, como se não conhecesse sua própria casa, colocou a cabeça de baixo da pia e a molhou com água fria - quem sabe a água fria lhe despertasse daquele pesadelo. Não chorou, não gritou, preparou um café bem forte, pouca açúcar, pois estava tudo muito amargo. Sentou-se na cadeira da cozinha e pôs as mãos em cima da mesa e ali ficou esperando por Paulo.

Barulho de chaves, era Paulo, e já com os cabelos secos, Clarice se levantou lentamente, não tinha pressa, e pegou uma faca e saiu ao encontro de Paulo. Foram 7 facadas, 7, e muito vermelho em sua roupa branca.
Desde o momento que Clarice pintou as unhas de vermelho essa foi a sua cor.

Um comentário:

Gaveta Antiga disse...

trágico! Eu sempre digo que quando mulher faz luzes no cabelo (aquelas que n nunca pintaram na vida), e pintam a unha de vermelho (aquelas, como Clarice, que sempre usam cores fracas), significa que querem ter liberdade. Quase sempre estão num relacionamento ruim e esta atitude atesta liberdade. Fim sangrento. Sete facadas... sete é o número mágico.. sete são as cores do arco-íris, sete são os dias que deus fez a terra, sete são as vidas dos gatos... sete é um número bem interessante.
beijos!