terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Ostrower, Fayga
Sem Título, 1980



sábado, 8 de janeiro de 2011

O que eu não aprendi

No começo de 2010 eu decidi por mudanças, escolhi o curso mais improvável em uma cidade praiana na Região dos Lagos chamada Rio das Ostras.
Quando se muda de cidade, não se muda apenas de cidade, mudam as pessoas, os hábitos, os amigos, as comidas, os desejos, os ares, além das mudanças decorrente ao ingressar em uma universidade, ainda mais pública. Mas mesmo com tantas mudanças, você ainda é aquela que: ama a sua família, os antigos amigos e que ainda possui aquela "mania" que incomoda tanto as pessoas.
E nesse jogo de mudanças e permanências que aos poucos você aprende (um pouco) o que é ser. Do que você gosta? Você realmente gosta? Tem certeza? Até quando? O quê? Não gosta? Ah, gosta? É...por quê?
Com o tempo, só o tempo, você passar a descobrir o que realmente não muda, e que dificilmente mudará – a vida é mesmo uma caixinha de surpresas. E de repente nessa "mudança" você experimenta novos sabores, cheiros e canções, e gosta. E por que não gostar de vários sabores, cheiros e canções? Por que só um(a)? Não é porque não sente mais aquele cheiro há muito tempo que esqueceu. O cheiro ficará em sua memória igual aquela queda que teve que ainda guarda a cicatriz.
Não entendo o verbo substituir, nada é igual, aquele cheiro do mesmo perfume ficou diferente na sua pele, mel pra mim não é açucar e o ritmo das pausas da sua fala é uma canção única.
Aprendi a valorizar mais o que eu já tinha, descartar ilusões, decifrar olhares, acostumar-me com jeitos, admirar pessoas, tolerar defeitos, rir de desespero, dar o que eu não tenho...
Na verdade, aprendi muita coisa, só não aprendi ainda uma: perder amigos.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Não se mate

1934 - BREJO DAS ALMAS

Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo:
hoje beija, amanhã não beija,
depois de amanhã é domingo
e segunda-feira ninguém sabe o que será.

Inútil você resistir
ou mesmo suicidar-se.
Não se mate, oh não se mate,
reserve-se todo para
as bodas que ninguém sabe
quando virão,
se é que virão.

O amor, Carlos, você telúrico,
a noite passou em você,
e os recalques se sublimando,
lá dentro um barulho inefável,
rezas,
vitrolas,
santos que se persignam,
anúncios do melhor sabão,
barulho que ninguém sabe
de quê, praquê.

Entretanto você caminha
melancólico e vertical.
Você é a palmeira, você é o grito
que ninguém ouviu no teatro
e as luzes todas se apagam.
O amor no escuro, não, no claro,
é sempre triste, meu filho, Carlos,
mas não diga nada a ninguém,
ninguem sabe nem saberá.


Carlos Drummond de Andrade